É neste primeiro trecho que se estabelece a tragédia de Matt Hagen. Sua perda da humanidade é inicialmente física, mas o ator britânico Tom Rhys Harries expande a dor do personagem quando ele se torna incapaz de ver a si próprio ao encarar sua imagem no espelho. Seu desespero sublinha as entrelinhas psicológicas e torna Hagen o arquétipo do monstro clássico.
É compreensível que James Gunn, chefão da DC, tenha colocado “Cara-de-Barro” na frente da fila em seu universo de “deuses e monstros”. O texto assinado por Mike Flanagan (“A Maldição da Residência Hill”) é, ou ao menos aspira ser, legitimo exemplar do body horror, com rostos desfigurados e carne derretendo, alinhado ao estilo “filme B” que empolga Gunn.
A ambição que permeia a trama, contudo, jamais é executada a contento. Fosse Flanagam o diretor, alguém que combina talento narrativo com apuro visual, “Cara-de-Barro” teria elementos para florear este thriller de vingança tradicional. É um esqueleto dramático semelhante ao de “Darkman” de Sam Raimi, e até mesmo de “Mulher-Gato” – sim, aquela beleza de filme com Halle Berry.
Falta, contudo, personalidade à direção de James Watkins, que fez o remake ianque de “Não Fale o Mal”. Ele flerta com o body horror, tão bem defendido no recente “A Substância”, mas se resguarda a uma versão adolescente, inofensiva. As relações entre personagens são rasas, o visual é desinteressante, de cores mornas, e falta um clímax melhor acentuado.
Ainda existe, claro, o problema em fazer parte de um universo cinematográfico. Por mais que “Cara-de-Barro” busque se desassociar de seus colegas mais coloridos, o filme ainda é uma coleção de referências que mais atrapalham do que ajudam – é impossível uma história ser ambientada em Gotham City sem que a plateia espere ver o Batman correndo pelos telhados (spoiler: não é desta vez).



