Depois de Wagner e Fernanda, que o Oscar seja sobre as garotas de Guaribas


“A Fabulosa Máquina do Tempo” acompanha garotas de 7 a 12 anos, de Guaribas, cidade de pouco mais de quatro mil pessoas no Piauí, imaginando e reimaginando a si mesmas, os outros e as conversas mais urgentes do nosso tempo de um jeito que diverte, emociona e faz pensar. Em minutos, você vai da risada ao suspiro profundo tentando acompanhar a velocidade de pensamento das personagens de um país real que desafia quem se aventura a explicar o Brasil sentado no feed das redes sociais.

Não escapa nada dos olhares atentos e das palavras afiadas das protagonistas da história dirigida pela Eliza Capai: do machismo estrutural ao lugar da espiritualidade na vida de cada uma delas, tudo é conversa. Do que as suas mães viveram ao que elas, filhas deste nosso tempo, querem para o futuro. Alguns temas inclusive viram encenação diante dos olhos de quem assiste. É de uma sutileza, ao mesmo tempo que é de uma complexidade, que, se assistido rápido demais, a compreensão não dá conta. Guaribas e as suas garotas são uma longa história.

Em 2003, o município foi escolhido como piloto do Programa Fome Zero. Por aqueles dias, o lugar a mais de 650 quilômetros da capital piauiense, Teresina, tinha o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. As políticas públicas melhoraram significativamente a vida das famílias, especialmente das mulheres que ganharam um mínimo de autonomia financeira. E foi aqui que Eliza Capai se encontrou pela primeira vez com as mulheres de Guaribas, em 2013.

Na época, a diretora viajou até a cidade para filmar “Severinas”, um retrato em curta-metragem sobre os impactos culturais que a política pública teve na vida e na dinâmica social do município. As crianças e adolescentes que vemos na tela em “A Fabulosa Máquina do Tempo” são a geração filha dessas transformações profundas, que seguem em curso. Como toda criação, o filme tem muitos jeitos de ser assistido. E essa lente é só uma entre outras tantas.

“A Fabulosa Máquina do Tempo” é fofo, sem ser ingênuo. É sério, sem ser rígido. É político, sem ser panfletário. Trabalha questões complexas com delicadeza, humor e imaginação, sem jamais diminuir o peso do que é conversado. A gente nem viu: passaram-se 70 minutos e acabou. É uma obra que entende que a fantasia não é sobre fugir da realidade, mas interpretá-la por outros ângulos. E nada é mais poderoso que as infâncias para fazer isso. O superpoder do filme da Eliza Capai é o de ser um filme-brinquedo. Merece o mundo.



Fonte: Uol

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