NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) – O brasileiro Thiago Brito, faixa-preta e professor de jiu-jítsu, foi preso pelo ICE, a polícia de imigração dos EUA, no último dia 24, no Aeroporto Internacional da Filadélfia. Desde então, seus alunos, crianças e adolescentes, têm se mobilizado para pedir sua soltura.
Premiado em competições nacionais e internacionais ao longo de 20 anos de carreira, Thiago, 34, é natural de São Paulo e professor da arte marcial na Filadélfia, no estado da Pensilvânia, há dez anos.
Ele foi detido quando embarcava para Orlando, na Flórida, a fim de acompanhar o Pan Kids, o maior e mais prestigiado campeonato de jiu-jítsu do mundo, do qual alguns de seus alunos participaram.
A detenção do atleta desencadeou uma mobilização online de alunos e seus familiares que pedem para que o professor seja colocado em liberdade. As crianças escreveram e desenharam cartas, acompanhadas de fotos com o treinador, que foram compartilhadas pelas academias nas redes sociais para pedir ajuda e doações.
“O professor Thiago é como um terceiro pai para mim”, escreveu Liam Karas, 14. “Viajei, competi e treinei com ele por 7 anos. Ele não apenas me tornou melhor fisicamente, mas também mentalmente, e me ensinou lições de vida que levarei comigo pelo resto da minha vida.”
Já Landry, 9, disse: “O Thiago me ajuda quando eu cometo erros. Ele me diz que está tudo bem e que os erros me tornam melhor. Então, se ele cometeu um erro, isso também vai torná-lo melhor, e ele já é uma pessoa incrível. Eu ficarei triste se o Thiago não puder voltar. Por favor, deixem ele voltar.”
Pais de alunos que há anos são treinados pelo brasileiro também se mobilizaram. Rhianon Kearns, a mãe de um de seus estudantes, gravou um vídeo no qual diz que a contribuição do professor para a comunidade é maior do que a de muitos que nasceram ali.
“Thiago tem sido absolutamente importante nas nossas vidas”, afirma ela. “Ele está com nossos filhos seis dias na semana pelos últimos cinco dias. Sabe muito mais das crianças dessa comunidade do que muitas pessoas que nasceram aqui. Fez mais para essa comunidade do que a maioria que nasceu aqui”, disse Kearns, ao pedir doações.
Uma campanha de arrecadação foi criada para ajudar a cobrir os gastos com a defesa. Até a tarde desta segunda-feira (3), mais de US$ 28 mil (R$ 143 mil) haviam sido arrecadados; o objetivo é chagar a US$ 35 mil.
Thiago se mudou há dez anos para os EUA, com convite para atuar como treinador, com um visto de turista (categoria B2), que permite permanência máxima de seis meses no país. Segundo membros de sua família, ele já tentou autorização de trabalho no país, mas teve o pedido negado.
Sua prisão se insere no contexto da presença crescente exercida pelo ICE nos aeroportos dos EUA –com fiscalização intensa mesmo em voos internos. Em colaboração com o TSA, a agência de segurança aeroportuária, os agentes têm detido cada vez mais imigrantes com vistos vencidos, e não apenas aqueles com algum processo criminal em sua conta.
O número de prisões de imigrantes no último mês de julho, quando essa prática foi iniciada, disparou. Foram mais de 46 mil detenções em custódia, em torno de 1.500 prisões por dia, segundo informou a rede CBS. O governo de Donald Trump já disse querer chegar à marca de 2.000 detenções de imigrantes em situação irregular a cada dia.
Após ser detido no aeroporto, o brasileiro foi levado para o FDC Filadélfia, centro de detenção federal que funciona principalmente como prisão preventiva e que começou a receber enviados pelo ICE no ano passado. Dali, foi transferido para o Moshannon Valley, presídio em Philipsburg, também na Pensilvânia, a cerca de 4 horas de carro da Filadélfia, que recebe apenas imigrantes.
A familiares Thiago relatou ter sido transferido algemado nos pés e nas mãos. Ainda assim, está identificado na prisão como um detento de baixa periculosidade. Ele aguarda audiência de custódia e tenta acessar consultas médicas para queixas de saúde que já apresentava antes mesmo de ser preso.
Também a familiares, disse estar vivendo um inferno.
No Moshannon Valley, assim como ele, estão outras 17 pessoas de nacionalidade brasileira. O local, um dos maiores centros de detenção de imigrantes no país, tem capacidade para 1.870 presos.
Do Brasil, a família de Thiago se diz em desespero pela escassez de respostas e as dúvidas sobre os próximos passos. O contato que têm com o atleta é limitado, dada a alta demanda dos detentos para usarem os poucos aparelhos disponíveis na prisão para ligar para seus familiares.
A reportagem perguntou ao ICE a acusação formal contra Thiago e suas condições na cadeia, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.
Do começo do governo Trump, em 2025, até o último mês de julho, 63 voos com brasileiros deportados chegaram ao Brasil, segundo dados oficiais do programa Aqui é Brasil, criado pelo Governo Federal.
Ao todo, foram quase 5.000 brasileiros retornados. Eles são em sua maioria (86%) homens, entre 18 e 49 anos de idade, e que ao chegar no Brasil se direcionam para três estados principais, nesta ordem: Minas Gerais, São Paulo e Rondônia, a maioria para ficar na casa de familiares.
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