A Odisseia: Nolan faz um épico grandioso, mas não perfeito


Por Ana Claudia Paixão – via MiscelAna

Christopher Nolan poderia ter escolhido um desafio mais simples após Oppenheimer. Em vez disso, decidiu voltar quase três mil anos no tempo e levar para o cinema uma das histórias que ajudaram a construir praticamente todas as outras que vieram depois. A Odisseia, de Homero, é aventura, fantasia e uma estrutura narrativa que continuamos a repetir até hoje. A jornada do herói está toda ali. Só isso já ajuda a dimensionar o risco.

Adaptar A Odisseia para o cinema sem transformar o clássico em uma aula ilustrada, mas também sem torná-lo incompreensível para quem nunca leu Homero, é uma tarefa imensa. E esse talvez seja um dos maiores méritos do filme de Nolan: ele consegue.

A Odisseia, de Christopher Nolan

Imagem: Divulgação

A Odisseia é um filme grandioso, espetacular e acessível. Quem conhece a obra encontrará seus personagens, monstros, provações e arquétipos. Quem nunca abriu o livro conseguirá acompanhar a história de Ulisses, ou Odisseu, tentando voltar para casa depois da Guerra de Troia. Nolan não exige erudição do espectador para entrar naquele universo. Ele transforma uma das obras fundamentais da cultura ocidental em cinema popular sem esvaziá-la completamente de suas questões mais importantes.

Isso não significa, porém, que tenha feito um filme perfeito. Nem, para mim, o melhor filme de sua carreira.

O ponto praticamente inquestionável é Matt Damon.

Se ele errasse o tom por um milímetro, o filme estaria perdido. A Odisseia depende de acreditarmos naquele homem como líder, guerreiro, estrategista, sobrevivente e, ao mesmo tempo, como alguém que carrega o peso de suas próprias decisões. Damon sustenta tudo isso com uma segurança impressionante.

É ótimo reencontrar, em um papel dessa dimensão, o grande ator que ele sempre foi. Nos últimos anos, nem sempre Damon recebeu personagens capazes de explorar toda a sua versatilidade. Aqui, ele tem presença, autoridade e vulnerabilidade. Ulisses precisa ser seguido por seus homens mesmo quando suas escolhas os conduzem ao desastre. Precisa ser admirado e questionado. Precisa ser o herói da história sem jamais ser tratado como um homem sem culpa. Damon entende perfeitamente essa contradição.

Ao lado dele, Himesh Patel também está muito bem e traz uma humanidade importante para a jornada. Samantha Morton, sempre que aparece, imediatamente eleva a cena, mas é justamente em um elenco gigantesco e repleto de estrelas que surgem algumas das minhas principais ressalvas. Anne Hathaway, uma atriz que admiro, me pareceu irregular como Penélope. Há momentos em que sua interpretação é excessivamente teatral, outros em que procura uma delicadeza quase calculada e outros em que tenta encontrar um registro mais íntimo. Para mim, essas diferentes escolhas nem sempre se encontram. É uma atuação correta, mas aquém do que esperava de uma atriz de sua capacidade e de um papel tão importante.

Também me decepcionei com Tom Holland. E talvez justamente porque sei o grande ator que ele pode ser. Seu Telêmaco tem uma função difícil: é um jovem construído pela ausência do pai, tentando compreender quem é enquanto procura um homem que conhece mais como mito do que como pessoa. Mas, em vários momentos, tive a sensação de ver o Homem-Aranha transportado para uma saga grega. Holland não desaparece completamente no personagem como já conseguiu fazer em outros trabalhos e ele mesmo sabe disso.

Há muitos elogios para Robert Pattinson, que está bem. É um ótimo vilão e sabe criar desconforto. Mas talvez exista agora um problema curioso em sua busca por provar, filme após filme, que é muito mais do que o galã que um dia o tornou famoso. O personagem estranho, a aparência transformada, a voz diferente, o olhar perturbador e a excentricidade já se tornaram tão frequentes em sua carreira que a surpresa começa a desaparecer. O que antes demonstrava sua versatilidade corre o risco de se transformar em uma nova repetição. Ele funciona, mas não vi aqui algo excepcional diante do que já o vimos fazer antes.

O mesmo vale, de outra maneira, para a quantidade de estrelas distribuídas pelo filme. Charlize Theron, Zendaya, Elliot Page, Travis Scott e outros nomes surgem ao longo da narrativa e produzem inevitavelmente aquele instante de reconhecimento: “olha quem apareceu agora”. As participações não chegam a prejudicar o filme, mas nem sempre acrescentam o peso que se esperaria de artistas desse tamanho.

Tecnicamente, porém, é difícil discutir com Nolan. A fotografia de Hoyte van Hoytema é espetacular. O filme foi rodado em locações de diferentes partes do mundo, incluindo Grécia, Marrocos, Itália, Islândia e Escócia, e essa geografia real dá à jornada uma dimensão que dificilmente seria alcançada apenas dentro de estúdios. Nolan transforma paisagens em parte da narrativa. O mar não é apenas bonito. É ameaçador. As montanhas, praias, ruínas e desertos não funcionam apenas como cartões-postais. São obstáculos. O resultado é especialmente forte nos momentos em que A Odisseia quase encosta no terror.

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Matt Damon e Zendaya em A Odisseia, de Christopher Nolan

Imagem: Divulgação

Os monstros e os perigos não existem apenas para oferecer cenas espetaculares. Existe uma sensação constante de opressão e vulnerabilidade. São homens avançando por um mundo que não compreendem, diante de forças que não conseguem controlar. Para quem acompanha e ama universos de fantasia como Game of Thrones ou House of the Dragon, seria difícil reclamar de uma jornada de monstros, deuses, feiticeiras e criaturas. Está tudo aqui e muito bem realizado.

A trilha sonora de Ludwig Göransson é outro dos grandes destaques. Vencedor de três Oscars, o compositor volta a trabalhar com Nolan depois de Tenet e Oppenheimer e cria uma música que não apenas acompanha as imagens, mas atravessa a jornada. Ela sabe crescer, ameaçar, recuar e pontuar os momentos emocionais sem abandonar a dimensão épica. Ainda é cedo para declarar qualquer Oscar ganho, naturalmente, mas seria surpreendente não vê-la entre as grandes candidatas da próxima temporada.

No entanto, o aspecto mais interessante de A Odisseia não está no tamanho das imagens. Está naquilo que Homero escreveu há milênios e que continua funcionando porque nós continuamos sendo, essencialmente, as mesmas pessoas.

Ulisses é o herói. Mas também é o homem que ajudou a destruir Troia. É o líder que toma decisões tentando salvar seus homens e precisa assistir às consequências dessas decisões. É alguém que diz que deseja voltar para casa, mas que já não pode simplesmente retornar como o homem que saiu de lá. O embate termina, mas a experiência da guerra não.

É nesse ponto que Nolan encontra a parte mais contemporânea de uma história antiquíssima. Algumas escolhas podem parecer quase evidentes demais diante das discussões do mundo atual, mas talvez essa seja justamente a razão pela qual A Odisseia sobreviveu por tanto tempo. Seus arquétipos continuam reconhecíveis porque falam de poder, ambição, culpa, perda, identidade, família, desejo e das consequências de nossas próprias escolhas. Afinal, a jornada do herói nunca foi apenas sobre chegar ao destino; é sobre toda a trajetória e também sobre descobrir quem volta.

Repito: Christopher Nolan fez um grande filme. Um filme lindo, ambicioso e feito para a tela grande, mas não acho que seja seu melhor trabalho e tampouco estou pronta para chamá-lo de melhor filme do ano. Outros épicos contemporâneos, especialmente o universo de Duna construído por Denis Villeneuve, ainda me parecem visualmente mais arrebatadores.

Mas talvez exista um mérito ainda maior em A Odisseia, porque Nolan pegou uma das obras mais importantes da história da humanidade e a colocou novamente diante de milhões de pessoas. Fez com que monstros, deuses, guerreiros e um homem tentando voltar para casa depois de uma guerra de milhares de anos atrás parecessem, mais uma vez, uma história sobre nós.

E isso está longe de ser pouco.

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Imagem: Divulgação





Fonte: Uol

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