Funcionários sabem que OpenAI não tem plano de negócios, diz autora de livro sobre a empresa



(FOLHAPRESS) – Em pouco mais de um ano desde seu lançamento nos EUA, o livro “O Império da IA”, da jornalista americana Karen Hao, se tornou uma das principais referências para quem busca entender a era da inteligência artificial generativa.

Na obra, Hao conta a história da ascensão da OpenAI com base em centenas de entrevistas e documentos, que trazem detalhes indecorosos. O retrato que aparece no livro é bem diferente da imagem pública que a empresa se empenha em construir.

A começar pelo próprio CEO da OpenAI, Sam Altman, que surge como alguém que, aos olhos de colaboradores importantes, não seria digno de confiança. Mesmo o modelo de negócios da empresa que atrai bilhões em investimentos vira alvo. Para Hao, os planos não são sólidos, e os próprios funcionários da empresa confessam isso à boca pequena.

A conclusão da jornalista é que as empresas de IA são como os impérios coloniais do passado: movidas pela concentração de poder, exploração do trabalho e de recursos naturais, além da busca por influência política.

De visita ao Brasil para lançar o livro em português, Hao diz nesta entrevista à reportagem que esses traços imperiais das empresas de IA vêm se aprofundando -inclusive por causa da aliança com o governo Donald Trump, empenhado em promover o uso militar dessa tecnologia.

A jornalista defende uma ação contundente da sociedade civil, nos EUA e no resto do mundo, para pressionar políticos e tornar mais difíceis os negócios dessas companhias.
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PERGUNTA – O livro mostra como a OpenAI saiu de uma organização sem fins lucrativos para uma estrutura que comporta o lucro. Agora, a empresa vai realizar seu IPO. É a conclusão natural do processo que você descreve? Com o capital aberto, pode-se esperar mais transparência?

KAREN HAO – É provável que a OpenAI se torne relativamente mais transparente do que uma empresa de capital fechado. Mas isso significa que será transparente em termos absolutos? Não.

Outro dia eu conversava com um ex-colega do Wall Street Journal que cobre os aspectos financeiros da indústria de IA. Ele comentava que hoje existem muitas maneiras criativas pelas quais até empresas de capital aberto escondem como realmente estão gastando dinheiro com inteligência artificial.

E a OpenAI é conhecida justamente por criar uma estrutura com múltiplas entidades sobrepostas, o que dificulta entender como o dinheiro circula, quem governa quem e como funciona a governança da organização. Por isso, não espero que a abertura de capital resolva repentinamente nenhum desses problemas.

P – As empresas de tecnologia aprofundaram sua aliança com o governo Donald Trump. O que essa parceria representa?

KH – A principal diferença entre os antigos impérios e essas empresas era apenas o grau de violência que exerciam. Essa diferença está diminuindo, por causa da aliança com o Estado. As empresas de IA estão vendendo suas tecnologias diretamente para os militares, para serem usadas em guerras.

Embora existam pequenas diferenças na forma como cada uma aborda essa questão, no fim todas estão contribuindo para integrar suas tecnologias ao aparato estatal de violência.

A relação entre essas empresas e o governo Trump me lembra a da Companhia Britânica das Índias Orientais com a coroa britânica. Eram duas entidades distintas, mas tinham uma agenda comum e buscavam expandir seu poder e sua influência pelo mundo.

Hoje essa aliança beneficia o Vale do Silício porque dá às empresas acesso a mais espaços de poder, a mais terras e à possibilidade de exercer formas ainda mais extremas de poder.

Essa situação pode se resolver, desde que haja uma mobilização social muito forte e mecanismos de responsabilização capazes de pressionar essa aliança entre Estado e empresas.

P – A guerra na região do Golfo tem servido de laboratório para o uso de IA aplicada a conflitos armados. Quais serão os efeitos dessa guerra para esse setor?

KH – A primeira consequência é que a guerra obrigou a indústria a revelar com muito mais clareza sua verdadeira posição em relação ao uso militar da inteligência artificial. Ficou evidente que essas empresas estão perfeitamente dispostas a apoiar esse tipo de operação.

A segunda consequência diz respeito aos riscos financeiros. Por causa da guerra, os preços da energia aumentaram.Todas as projeções que elas fizeram -sobre quando passariam a gerar lucro- partiam de determinadas premissas sobre o preço da energia e o custo de funcionamento de seus data centers. Essas premissas mudaram completamente e o risco financeiro aumentou bastante.

Por um lado, a guerra mostrou com mais clareza o dano que essas empresas podem causar, tanto do ponto de vista humano quanto econômico. Por outro, revelou ainda mais suas fragilidades.

P – A oposição às empresas de IA tem crescido nos Estados Unidos, com ações contra projetos de data centers em diversas comunidades. Quais serão os efeitos desse movimento?

KH – O exemplo que gosto de usar é o da OpenAI ter encerrado seu serviço de vídeos. Quando o Sora foi lançado, a empresa o apresentou como seu produto mais importante desde o ChatGPT. O fato de a empresa ter encerrado essa iniciativa se deve, na minha avaliação, a três fatores -todos influenciados por ações de base.

O primeiro é a limitação da capacidade computacional. Os protestos contra os data centers estão restringindo a capacidade da empresa de continuar expandindo sua infraestrutura e mantendo tantos produtos diferentes.

O segundo é a incerteza em relação ao futuro financeiro. Wall Street está cada vez mais preocupada com a reação política e social à indústria de IA e começa a duvidar de que ela conseguirá cumprir as promessas que fez aos investidores.

À medida que a OpenAI se prepara para abrir capital, ela também se torna mais vulnerável à opinião do mercado.

O terceiro fator é que a demanda dos consumidores parece ter estagnado. As pessoas simplesmente não querem esse tipo de tecnologia tanto quanto se imaginava. Essa também é uma forma de ação coletiva.

Não podemos contar que formuladores de políticas públicas façam a coisa certa espontaneamente. Eles só agirão quando houver uma ameaça real aos seus cargos. E isso só acontece por meio da pressão exercida de baixo para cima.

P – Você diz que as empresas de IA instrumentalizam politicamente o conceito de superinteligência e o suposto risco de que a China a desenvolva antes dos EUA. Essa narrativa continua convincente?

KH – Recentemente conversei com alguns formuladores de políticas públicas nos Estados Unidos, e eles diziam que o argumento “e a China?” perdeu muito fôlego em Washington. Em parte, isso acontece porque a narrativa da AGI (inteligência artificial geral, na sigla em inglês) é um mito. E mitos prosperam quando existe um vazio de informação.

O que aconteceu é que essa tecnologia passou a fazer parte da vida das pessoas. Quando isso acontece, o mito perde força, porque passa a existir uma base concreta de fatos e evidências sobre o que essa tecnologia realmente é.

No caso da China, muitos formuladores de políticas passaram a se sentir manipulados. Ao longo da última década, as empresas usaram o mesmo argumento durante a expansão das redes sociais. Diziam: “Não nos regulem, vamos construir as principais plataformas do mundo e fortalecer as democracias”. Aconteceu exatamente o contrário.

Depois, com a inteligência artificial, surgiu uma nova versão do mesmo argumento: “Não nos regulem. Em vez disso, imponham restrições à China por meio de controles de exportação, para que os modelos americanos dominem o mercado.”

Mas a China respondeu desenvolvendo modelos de código aberto justamente por causa dessas restrições. Esses modelos são mais eficientes, gratuitos e, em muitos casos, até empresas americanas preferem utilizá-los.

P – Você sustenta que o atual modelo de desenvolvimento da IA, baseado em ganho de escala sem precedentes, não foi uma decisão técnica. Pode explicar melhor esse argumento?

KH – Quando comecei a cobrir inteligência artificial, em 2018, a área caminhava exatamente na direção oposta. Havia um enorme interesse pelo que se chamava de “tiny AI” [IA pequena]. O foco era desenvolver sistemas capazes de aprender com muito poucos dados, utilizando pouca capacidade computacional e consumindo pouca energia.

Cheguei a escrever sobre sistemas que eram treinados diretamente em um telefone celular. Só isso já mostra que a aposta na escala foi uma escolha. Já existiam formas completamente diferentes de desenvolver modelos poderosos. O motivo de a escala ter se tornado dominante foi a dinâmica de competição entre OpenAI, Anthropic, Google e as demais empresas.

Existem duas maneiras de fazer a IA avançar. Uma delas é produzir pesquisa realmente nova, realizar descobertas e desenvolver novas técnicas. A outra consiste em pegar técnicas que já existem e simplesmente aplicar cada vez mais capacidade computacional sobre elas.

Antes de a OpenAI popularizar essa segunda estratégia, a maior parte da pesquisa seguia o primeiro caminho, porque é ali que acontece a verdadeira inovação científica.

O problema é que pesquisa leva tempo. Quando você administra uma empresa que compete com outras empresas, é muito mais atraente conseguir aumentar as capacidades do modelo de forma previsível e constante.

Nesse caso, tudo passa a depender de quanto dinheiro você tem e da velocidade com que consegue construir supercomputadores maiores. Mas isso transfere para toda a sociedade os custos do desenvolvimento da IA.

P – Hoje existe algum ceticismo quanto ao modelo de negócios dessas empresas. O crescimento delas vai ser freado pela oposição política ou por limitações econômicas?

KH – Os protestos aumentam o risco do negócio das empresas. Quanto mais a mobilização social dificulta a expansão delas, mais tempo elas levam para executar seus planos. E, quanto mais tempo levam, mais dinheiro perdem.

Essas empresas não têm plano de negócios. Continuo em contato com pessoas que trabalham na OpenAI, e elas reconhecem que não têm um plano de negócios. Também sabem que as projeções da receita necessária para atingir o equilíbrio financeiro são extraordinárias.

Elas próprias reconhecem que o que estão tentando fazer é extremamente ambicioso. Acham que pode dar certo, mas não dizem que seja provável. Dizem apenas que é possível -desde que tudo seja executado de maneira praticamente perfeita.

E esse é justamente o problema. Com toda essa mobilização social, ficou muito mais difícil imaginar que tudo transcorrerá perfeitamente.
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RAIO-X | KAREN HAO, 32
Formada em engenharia mecânica pelo (Massachusetts Institute of Technology), a jornalista escreve para publicações como The Atlantic e, no ano passado, foi nomeada uma das cem pessoas mais influentes do ano pela revista Time. Ela já foi repórter no Wall Street Journal e editora sênior de IA da revista MIT Technology Review. Ela também lidera o programa AI Spotlight do Pulitzer Center, que treina jornalistas pelo mundo para cobrir os avanços da IA.

O IMÉRIO DA IA
Preço R$ 99,90 e R$ 47,40 (ebook)
Autoria Karen Hao
Editora Rocco (440 págs.)
Tradução Ananda Alves e André Sequeira



Fonte: Notícias ao Minuto

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