LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – A saga da aposentada espanhola María del Carmen Abascal Martín, despejada aos 87 anos do apartamento onde vivera por sete décadas, provocou protestos que encheram a praça Puerta del Sol, um dos cartões postais de Madri; estremeceu o governo do socialista Pedro Sánchez, que foi obrigado a convocar novas eleições; e motivou a convocação de uma greve geral.
Nesta quarta-feira (7), Maricarmen, como ficou conhecida, morreu no hospital Gregório Marañón, onde estava internada, sem conseguir voltar para o apartamento onde morava, embora tivesse chegado a um acordo de redução do aluguel com o proprietário.
“Lamentamos comunicar que Maricarmen faleceu hoje”, afirmou o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madri em nota, na qual destacou seu “exemplo de luta” e a onda de reações após seu despejo, que “representam um divisor de águas na história deste país”.
“Após sua partida, ficamos com o exemplo de luta e o legado que Maricarmen deixou. E, acima de tudo, vamos cumprir o que ela sempre nos pedia: ‘Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês'”, segue a nota.
Maricarmen ficou famosa e se tornou um símbolo da questão habitacional na Espanha há pouco menos de um ano. Em 29 de outubro de 2025, uma mobilização popular impediu que a secretária aposentada fosse despejada do imóvel onde residia desde 1939, o ano do início da ditadura franquista.
Ela vivia num apartamento de três quartos e 92 m² na rua Sáinz de Baranda, em Ibiza, bairro de classe média de Madri. Herdara o imóvel do pai, que assinara um contrato com aluguel fixo na faixa de € 500 (quase R$ 2.800 na cotação atual). Após mudanças na lei de inquilinato, o preço subiu para € 2.650 (R$ 14,8 mil), valor que Maricarmen não podia pagar com sua aposentadoria de € 1.400 (R$ 7.800).
As tentativas de despejo se sucederam, sempre impedidas por mobilizações populares. O caso chegou até a ONU. Em junho deste ano, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da entidade emitiu um comunicado em favor de Maricarmen, dizendo que “os despejos não deveriam dar lugar a uma situação em que pessoas fiquem sem casa ou expostas a violações dos direitos humanos”. Segundo o comunicado, era necessário que fossem dadas à aposentada outras alternativas de moradia.
O despejo finalmente se concretizou no último 23 de setembro, quando um portentoso aparato policial evitou a ação dos manifestantes em favor de Maricarmen. A aposentada, que utilizava cadeira de rodas, foi retirada de maca diretamente para o hospital. Foi o estopim para as manifestações na Puerta del Sol, tomada por mais de 1.200 tendas. O slogan dos manifestantes era: “Ni una Maricarmen más!”
Do ponto de vista jurídico, o caso de Maricarmen remete a uma lei machista da ditadura de Francisco Franco (1892-1975), quando mulheres não tinham direito à posse de imóveis. Quando o pai de Maricarmen faleceu, a mãe teve que entrar na Justiça para homologar o contrato no qual o aluguel não poderia ser reajustado.
Maricarmen se tornou um símbolo porque a questão habitacional se tornou um dos temas mais mobilizadores da política europeia, ao lado da imigração. Estima-se que os preços dos aluguéis tenham subido 87% na Espanha nos últimos dez anos. Na União Europeia, tornou-se comum que jovens demorem para sair da casa dos pais porque, com os salários de início de carreira, não conseguem arcar com os custos de moradia.
A comoção em torno do caso de Maricarmen provocou uma reação do governo socialista de Pedro Sánchez. O primeiro-ministro na Espanha criou dois decretos que congelavam aluguéis após certo tempo e dificultavam despejos. Ambos, que ficaram conhecidos como “decretos Maricarmen”, foram derrubados no Parlamento, expondo a fragilidade da coligação que sustenta o governo.
Sánchez não teve outro remédio senão solicitar ao rei Felipe 6º a “dissolução das cortes”, procedimento em que o Parlamento é dissolvido e se convocam novas eleições. Elas foram marcadas para o próximo dia 29 de novembro.
“Todo o meu carinho à família e aos entes queridos de Maricarmen. Um abraço também a todos os que hoje sentimos esta perda como própria. Descanse em paz”, escreveu Sánchez em rede social.
Logo após a derrubada dos decretos, o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Madri propôs uma greve geral pela melhoria de condições de moradia. As principais centrais sindicais espanholas encamparam o movimento, e a data foi marcada, nesta quarta-feira, para o dia 11 de novembro.
Em seus últimos dias, no hospital, Maricarmen recebeu a notícia de um acordo com o fundo de investimento proprietário do apartamento da Sáinz de Baranda. Ela teria direito a um novo contrato, de oito anos, num valor próximo aos € 500 originais.
De acordo com o jornal espanhol El País, a aposentada de 87 anos manifestava dois desejos. Voltar a seu apartamento para morrer em casa. E ver suas cinzas jogadas no mar Cantábrico, no norte da Espanha. O primeiro desejo acabou frustrado na noite deste 7 de outubro.
Leia Também: Casal é acusado de abusos a 16 crianças em “mansão dos horrores”


